Da FAI para o mundo: alunos de Enfermagem e Medicina publicam estudo na principal revista científica internacional de acesso aberto do mundo em Saúde Materno-Infantil
03/07/2026 17h04
Estudo desenvolvido por estudantes da graduação analisa mais de 4,3 milhões de nascimentos em São Paulo e traz descobertas inéditas que poderão contribuir para o planejamento das políticas públicas de saúde materno-infantil no Brasil
Por Jéssica Nakadaira

A ciência produzida dentro das salas de aula e dos grupos de pesquisa do Centro Universitário de Adamantina (FAI) acaba de alcançar reconhecimento internacional.
No último 2 de julho de 2026, estudantes participantes do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) — programa que incentiva alunos da graduação a desenvolver pesquisas científicas sob orientação de professores pesquisadores — dos cursos de Enfermagem e Medicina tiveram seu trabalho publicado na BMC Pregnancy and Childbirth, revista científica da renomada editora Springer Nature, considerada uma das mais importantes publicações internacionais de acesso aberto voltadas exclusivamente à gravidez, parto, saúde materna, neonatal e saúde pública materno-infantil.
O artigo, intitulado “Temporal trends and maternal factors associated with congenital anomalies among live births in São Paulo, Brazil: a population-based study, 2015–2023”, foi desenvolvido pelos alunos Lucas Moreira dos Santos, Analícia de Camargo Cremonez, Giovana Macedo de Melo, Maria Eduarda Ríboli Paes, Maria Eduarda Calarga Lira, Ana Carolina Batista Scherole e Bruna Letícia Pessoa Narante, sob coordenação do Prof. Dr. Fabio Antonio Venancio, coordenador do curso de Enfermagem da FAI, e da Profa. Dra. Daniele Cristina Vitorelli-Venancio.
A publicação representa uma conquista que ultrapassa os limites da instituição. Em um cenário científico altamente competitivo, onde apenas estudos com elevado rigor metodológico são aprovados, o trabalho desenvolvido pelos alunos da graduação conquistou espaço em um dos periódicos de maior prestígio internacional na área de saúde materno-infantil.
O maior estudo já realizados sobre o tema no Brasil
A pesquisa analisou informações de 4 milhões de nascidos vivos registrados no Estado de São Paulo entre 2015 e 2023, identificando 53.217 casos de anomalias congênitas, tornando-se um dos maiores estudos brasileiros já realizados sobre o assunto utilizando dados populacionais.
O objetivo foi compreender como a ocorrência das anomalias congênitas evoluiu ao longo dos anos e quais características maternas estiveram associadas ao seu aparecimento.
O estudo apresenta um diferencial importante: ele acompanhou praticamente uma década da história recente da saúde pública brasileira, permitindo comparar três períodos epidemiológicos marcantes — a epidemia do vírus Zika, a pandemia de COVID-19 e o período pós-pandemia — oferecendo uma visão ampla sobre possíveis mudanças no perfil das anomalias congênitas ao longo desses eventos.
Os resultados demonstraram que a prevalência das anomalias congênitas aumentou ao longo da série histórica, passando de aproximadamente 104 casos para cada 10 mil nascidos vivos em 2015 para cerca de 144 casos por 10 mil em 2023. Entre os principais achados, observou-se crescimento contínuo das anomalias do aparelho circulatório e aumento recente das alterações do sistema digestório, enquanto as anomalias do sistema nervoso apresentaram tendência de redução após os anos mais intensos da epidemia de Zika.
Os pesquisadores também identificaram fatores associados a maior chance de ocorrência dessas condições, como idade materna mais avançada, gestações múltiplas e o sexo masculino do recém-nascido. Em contrapartida, o acompanhamento pré-natal mostrou-se um importante fator relacionado à redução dos casos registrados, reforçando a importância do acesso precoce e adequado aos serviços de saúde durante a gestação.
Ciência que contribui para a saúde pública
Segundo o coordenador da pesquisa, Prof. Dr. Fabio Antonio Venancio, o estudo poderá servir como importante ferramenta para o planejamento das políticas públicas voltadas à saúde materna e infantil.
“Este é um estudo inédito pela dimensão da população analisada e pela forma como acompanhou quase dez anos de nascimentos no Estado de São Paulo. Os resultados permitem compreender como as anomalias congênitas vêm se comportando ao longo do tempo e identificam fatores que podem auxiliar gestores e profissionais de saúde na formulação de estratégias mais eficientes de prevenção, vigilância e assistência à gestante e ao recém-nascido. Produzir conhecimento capaz de orientar políticas públicas e melhorar a qualidade da assistência é uma das maiores contribuições que a universidade pode oferecer à sociedade.”
O professor destaca ainda que pesquisas desse porte fortalecem a vigilância epidemiológica e fornecem evidências científicas para o desenvolvimento de programas voltados ao cuidado materno-infantil, beneficiando diretamente milhares de famílias.
Muito além de um artigo científico
Para o professor Dr. Fabio Antonio Venancio, entretanto, o maior resultado dessa conquista não está apenas na publicação internacional, mas na formação de novos pesquisadores.
“Publicar em uma revista científica internacional de alto impacto já é um desafio até para pesquisadores experientes e estudantes de pós-graduação. No Brasil, estima-se que apenas uma pequena parcela dos doutorandos consiga publicar artigos em periódicos internacionais de grande impacto durante sua formação — algo próximo de 6% em alguns levantamentos. Por isso, ver alunos de Iniciação Científica alcançando esse resultado ainda na graduação mostra o quanto a oportunidade, a orientação e a dedicação podem transformar trajetórias. Esses estudantes não apenas publicaram um artigo; eles marcaram seus nomes na ciência e abriram portas importantes para suas futuras carreiras profissionais e acadêmicas. Sempre digo aos meus alunos que nunca deixem de acreditar no poder da ciência. A ciência nasce da curiosidade, cresce com dedicação e ganha sentido quando conseguimos transformar conhecimento em cuidado, soluções e benefícios reais para as pessoas e para as comunidades. Talvez seja por isso que ensinar pesquisa seja uma das partes que mais me realizam como professor. Ver estudantes da graduação descobrindo o prazer de investigar, questionar, produzir conhecimento e perceber que são capazes de contribuir com a ciência é algo que não tem preço. Hoje comemoramos mais uma conquista. Um artigo desenvolvido por alunos do nosso Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica foi publicado em uma das mais importantes revistas científicas internacionais da área de saúde materno-infantil. Mais do que uma publicação, vejo nessa conquista a confirmação de que, quando oferecemos oportunidade, orientação e acreditamos no potencial dos nossos estudantes, eles conseguem alcançar resultados que ultrapassam os muros da universidade e ganham reconhecimento internacional. Que nunca nos falte curiosidade para fazer perguntas, coragem para pesquisar e compromisso para transformar conhecimento em benefícios reais para a sociedade. A ciência muda o mundo. E tudo começa quando alguém decide fazer a pergunta certa”, diz.
Um momento que ficará para a história
A notícia da aprovação do artigo foi recebida de maneira emocionante pelos estudantes do grupo de pesquisa. Em uma conversa no grupo de WhatsApp do PIBIC, após uma simples provocação do professor para que pesquisassem no Google qual era a principal revista científica internacional de acesso aberto dedicada exclusivamente à saúde materno-infantil, os próprios alunos descobriram que o artigo produzido por eles havia sido aceito exatamente nesse periódico.
A reação espontânea do grupo, marcada por mensagens de surpresa, alegria e orgulho, simbolizou um momento que ficará registrado na trajetória acadêmica desses futuros profissionais da saúde. Mais do que celebrar uma publicação científica, os estudantes comemoraram a certeza de que a dedicação à pesquisa durante a graduação pode abrir portas para o cenário científico internacional.
Acesse o artigo completo
O estudo está disponível gratuitamente para leitura no portal da Springer Nature:
https://link.springer.com/article/10.1186/s12884-026-09587-z

Crédito da foto: Arquivo pessoal / Reprodução
Legenda: A notícia da aprovação do artigo foi recebida de maneira emocionante pelos estudantes do grupo de pesquisa
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